4 de fev de 2010

Para que serve a História?

Como é bom, depois de um bom tempo passado, encontrar um velho amigo. Isso aconteceu comigo esses dias... Inesperadamente me deparo com um ex-colega de faculdade. Começamos a conversar, relembramos coisas engraçadas, outras nem tanto, recordamos das aulas, dos intervalos, dos colegas e professores, lembramos com saudades de todo aquele tempo, e apesar de historiadores que somos, nossa conversa não ficou apenas no passado, passamos a falar de nossas vidas atuais... Nos vimos dois amigos formados em história, eu trabalhando com a docência em história e também com pesquisa, e ele aguardava ser chamado para exercer o cargo de um concurso no qual havia passado. Os dois ganhando suas vidas com a história.
Papo vai e papo vem, e lá pelas tantas ele me diz: Carlos, eu sei que era eu quem deveria ter uma resposta pra isso, mas ultimamente venho pensando... afinal de contas, pra que serve a história?
A dúvida de meu colega é muito legítima, uma vez que a função da história já foi discurso de vários teóricos, já foi tema de vários debates, e já mudou muito através dos tempos. Houve épocas onde a História não era reconhecida como ciência, houve épocas que o mito fora mais valorizado como forma de conhecimento do mundo do que a História; houve épocas, por outro lado, onde historiadores procuravam resgatar um passado tal qual ele foi, baseado unicamente em documentos oficiais e legítimos; houve épocas onde a função do historiador era engrandecer a pátria onde vivia e valorizar os grandes heróis dela e seus feitos.
Mas afinal, para que serve a História?
Para responder essa pergunta, ou para tentar respondê-la, primeiro é preciso entender uma coisa: não existe verdade pronta e acabada na História. Essa constatação chocou muitos historiadores e cientistas através dos tempos, mas de fato, não podemos considerar um fato histórico como fato verdadeiro ou irrefutável. O dado Histórico está especialmente condenado à substituição, a novas descobertas, à refutação. Isso é simples de se entender: ora, novos achados de fontes históricas podem modificar a idéia que se tem sobre uma época.
Por outro lado, seguindo o pensamento da Linguística e de Foucault, precisamos estar atentos a distância que existe entre nossos discursos e a realidade. O ser humano entende o mundo através da linguagem e a linguagem é uma construção do homem, da cultura humana. A linguagem não traduz a coisa como ela é, mas sim, abstrai o objeto, delimita-o em suas categorias que são aceitas por uma comunidade que partilha do mesmo código. Para citar dois exemplos breves, falaremos de Magritte e Roberto Carlos!
O primeiro foi um pintor surrealista, em um de seus quadros mais famosos desenhou um cachimbo e logo abaixo dele escreveu: “Isso não é um cachimbo.” O que ele pretendeu com isso é claro, o cachimbo desenhado não é real, não se pode tocar nele, não se pode fumar com ele, o cachimbo no quadro de Magritte é apenas uma representação de um cachimbo.
O segundo exemplo, esse mais “bonitinho”, é o amor. Como podemos descrever o amor tal qual ele é? Essa com certeza é uma tarefa inglória e impossível de ser feita. As tentativas poéticas ou científicas não conseguem traduzir aquilo que o amor é, apenas lançam um ponto de vista - e um ponto de vista bastante limitado - sobre sentimento do amor. Quem diria, Roberto Carlos está certíssimo quando diz: “Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer, como é grande meu amor por você”. Simplesmente não há como dizer o que o amor exatamente é. Apenas se sente ele, e ponto.
Pois assim é com a história, não há verdade na história e é impossível resgatar aquilo que aconteceu no passado. O que então o historiador faz? Se não tem como chegar a uma verdade sobre aquilo que aconteceu, então tudo pode ser considerado história?
Não, não é bem assim... Hoje se entende que o historiador não resgata ou reconstrói o passado, mas sim, constrói ele. Isso mesmo, o historiador constrói o passado. Aquilo que ele escreve é um ponto de vista sobre algo que aconteceu, e todo ponto de vista vem de algum ponto, por assim dizer. Aquilo que ele escreve é um discurso sobre o passado. Do mesmo modo que podemos dizer que Magritte faz uma imagem de um cachimbo e não o cachimbo real, o historiador faz uma imagem do passado e não reconstrói ele, não há como dizer e passar aquilo que o passado foi realmente e exatamente: "eu tenho tanto pra lhe falar mas com palavras não sei dizer" (!). O historiador não é neutro, nunca. Ele tem uma visão de mundo, ele vem de alguma classe social, ele é homem, é mulher, mãe, pai, filho, rebelde, apaixonado, desiludido... Aquilo que o historiador é e vive, aquilo com o que ele gosta e se identifica influencia no seu texto e faz parte da construção da história. Por isso existem várias visões sobre uma mesma época, muitas delas conflitantes, porque foram diferentes historiadores, com diferentes posições que escreveram sobre ela. Como poderemos afirmar qual visão é verdadeira e qual falsa? É impossível fazer isso! O mais próximo disso que podemos chegar é tentar avaliar qual posição é a mais verossímil, qual posição que esteve menos moldada à vontade e ideais do autor.
Para concluir a reflexão, podemos dizer que a história não fala exclusivamente do passado, aliás, a parte mais importante da pesquisa histórica não está no passado, mas sim, no presente. Toda pesquisa histórica parte do presente pra falar do passado. O simples narrar de acontecimentos cronológicos não é o que pretendemos enquanto disciplina para a história, mas sim, a explicação e justificativa de situações do presente. Para isso a história serve, ou deve servir, para explicar e justificar situações do presente. Com o olhar para o passado é que o presente é pensado, identidades são forjadas, ações políticas executadas, a sociedade é moldada, comportamentos são aceitos ou não... O olhar para o passado permite ao ser humano saber quem ele é, permite a comunidade onde se vive se sentir pertencente a um lugar, permite uma nação ter uma noção comum de destino.
A construção da história, portanto, justifica e dá sentido ao presente. Aqui temos um problema. Se a história é construção, se não podemos considerar nenhuma história verdadeira ou não, então qualquer história poderia ser aceita para justificar o presente. Esse ponto é crucial e é nele que historiadores de diferentes visões conflitam. Para que a história tenha um sentido e utilidade, portanto, é preciso que tenhamos muito claro noções de humanidade, solidariedade e justiça, pois só com esses limiares é que um historiador pode escrever uma história que edifique o homem e a sociedade e possibilite que ambos se desenvolvam cada vez mais na busca da felicidade e da equidade.

2 comentários:

  1. Carlos,

    adorei seu texto! Claro, direto e se aproxima muito do que eu penso! Neste sentido , pergunto-lhe: quando você escreve "Como poderemos afirmar qual visão é verdadeira e qual falsa? É impossível fazer isso! O mais próximo disso que podemos chegar é tentar avaliar qual posição é a mais verossímil, qual posição que esteve menos moldada à vontade e ideais do autor", não seria mais coerente pensarmos dizer "O mais próximo disso que podemos chegar é tentar avaliar qual posição é a mais verossímil à minha maneira de ver a situação, à qual posição que está mais próxima da minha vontade e ideais"?

    Digo isto pois ao analisar a descrição mais verossímil, tanto o faço de um certo ponto de vista que não é neutro, que não é isento da minha posição social, relações estabelecidas, etc...

    Abraço,

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  2. Pois é, após 2 anos encontrei seu comentário e concordo!
    Obrigado por ler!

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